segunda-feira, 2 de agosto de 2010

(...) Com essa maré toda contra, não tenho escrito absolutamente nada. É terrível. Tu sabes como é, a gente fica pensando aquela porção de coisas destrutivas, que nunca mais vai conseguir, que secou completamente, etc. Tenho algumas idéias, várias anotações, tudo meio caótico e superdesorganizado — mas acho tudo pálido, tudo insuficiente e inútil nesse momento que a gente está vivendo. Ando me sentindo ex-escritor, ex-amigo de qualquer pessoa, ex-gente — (...) “Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito. Tenho me fatigado tanto todos os dias vestindo, despindo e arrastando amor, infância, sóis e sombras”. A verdade é que não me sinto capaz de nada. Não é fossa. Fossa dá idéia de uma coisa subjetiva e narcisista. São motivos bem concretos, que inclusive transcendem o plano pessoal. E tudo tão insolúvel que a gente só pode fugir, porque ficar não adianta nada. A minha maneira de fugir, tu sabes, é dormindo. Andei dormindo até quinze horas por dia, durante quase duas semanas. Nos contatos que tenho com gente da minha geração, ou de outras, mas unidos pela mesma lucidez, percebo de maneira intensa a mesma sensação de abandono e de inutilidade.

(Caio F. Abreu)

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